| Desde os tempos mais remotos, os povos sempre ritualizaram
a entrada do ano ou seja, a chegada da Primavera e o renascimento da
natureza, acreditando que dessa forma esta lhes seria favorável. Com
efeito, para o homem primitivo a celebração do ritual correspondia a uma
forma de participação na acção criadora dos |
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deuses, assegurando-se desse modo que o ciclo da natureza não seria
interrompido, o que confere ao rito um carácter de magia imprescindível
à reprodução do gesto primordial ou seja, o da própria criação do mundo
e das coisas.
O rito é, por assim dizer a celebração do mito da criação, assumindo
sempre a sacralidade imanente ao acto da criação divina. Assim se
verifica com as práticas relacionadas com o culto dos mortos que ocorre
invariavelmente com a chegada do Inverno e também com as celebrações do nascimento do sol que se verifica no
solstício de Dezembro, altura em que os dias cessam de diminuir e voltam a
crescer, ocasião essa que dava lugar às saturnais entre os romanos e com a
influência do cristianismo veio a originar a celebração do Natal de Jesus
Cristo. Ora, é directamente das saturnais romanas que provêm
directamente os festejos de Carnaval os quais eram consagrados à divindade
egípcia Ísis, embora estes a tenham adquirido dos gregos que as realizavam em
honra de Dionísos, um deus do vinho e dos prazeres da carne.
Em Veneza onde as máscaras brancas ainda
pontificam, o Carnaval terminava com o enterro de Baco,
curiosamente, a divindade que na mitologia latina corresponde à de Dionísos na
Grécia antiga. |

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O uso de máscaras que ocorre durante os festejos de Carnaval tem na sua
origem um carácter religioso relacionado ainda com o culto dos mortos,
pretendendo-se com a sua antropomorfização invocar os seus espíritos e a
sua intercessão no ciclo ininterrupto de vida e morte da própria
natureza e dos vegetais, razão pela qual muitos mascarados se vestem de
branco, afivelam máscaras que representam esqueletos ou simplesmente a
própria morte. |
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Acendiam-se fogueiras e queimavam-se bonecos, na versão mais
cristianizada da queima do Judas. É neste contexto ainda que se inserem
as tradicionais máscaras no País e no nosso concelho de Sernancelhe, com
os respectivos festejos iniciativa principalmente dos jovens, e que ali
têm lugar.
Com o decorrer dos tempos, estas festividades também adquiriram um carácter de
crítica social, visando com ele corrigir os desvios verificados no ano velho de
modo ao renascimento da natureza também se operar no indivíduo e no seio da
própria sociedade, o que explica as pulhas e os "testamentos" que são lidos na queima do judas, bem assim como as máscaras que procuram
representar alguém sem ser a própria morte. Aliás, na tragédia grega a máscara
que era usada significava precisamente a "pessoa" que se representava.
Perdida que foi a sacralidade primitiva, os festejos chegam até nós pela
tradição, despojados de espiritualidade, apenas envoltos em fantasia e
divertimento, mas contendo ainda em si os elementos que o
determinaram.
A tradição trouxe-nos até nós tais práticas que passaram a fazer parte
do nosso folclore. Pese embora as transformações culturais e as
modificações que entretanto se operaram na mentalidade dos povos, as
mudanças sociais e de modos de vida cada vez mais divorciada da |

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própria natureza, cumpre-nos manter tais costumes como forma de
preservar a nossa identidade e, o que nos parece essencial, a nossa
própria dimensão humana. Graças à tradição conseguiremos transmitir aos
vindouros o conhecimento humano que os nossos ancestrais nos legaram !
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