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A Igreja Paroquial de Vila da Ponte

É um templo de construção posterior a uma igreja ou capela que anteriormente existia no mesmo local, de traça românica dos fins do século XII ou início do século XIII, com resquícios da era suévica, a ajuizar por uma pedra de pedestal que foi encontrada com suporte à tribuna do altar-mor. Provavelmente a orientação não seria a actual nascente-poente por não se tratar de igreja paroquial no tempo da sua construção e porque no período da arte paleocristã tal orientação de implantação de templos não fazia sentido.

Nada custa a acreditar que a porta travessa do corpo da igreja no pano norte, em arco de volta inteira e tímpano com cruz florenciada com quatro terminais em estrelas de oito pontas, haja sido a porta de entrada do anterior espaço de culto. Do românico restam ainda uma goteira e uma meia pedra tumular (?) ou de mesa de ara com as meias esferas a servirem de orla.

A igreja que actualmente pontifica é fábrica do século XVII. Compõe-se de uma só nave, capela-mor e sacristia. A torre sineira, de forma quadrangular, é encimada por uma cúpula em pedra e muito elevada e possui em cada um dos cantos um pináculo com base

 

cúbica bastante volumosa.
O altar-mor é de boa talha dourada vazada do século XVII, já nitidamente danificada, não só pela erosão do tempo, mas também pela delapidação a que se entregaram os franceses de Massena, na terceira invasão e também os de Junot, a quando da primeira.. O painel de estilo renascença, que inclui um sacrário com porta de bela textura, foi aplicado em 1980. O tecto é de madeira em berço e pintado, obra da viragem do século XIX para o século XX.

A sacristia é um anexo de características estruturais análogas às da igreja e comunica directamente com o exterior.

O corpo da igreja, com tecto em madeira pintada, do século XIX, é de paredes nuas, de dimensões e textura desiguais, com poucas aberturas, o que dá a ideia de um espaço austero.
Apesar da largura, a planta é cruciforme, de ténue pendência. O lajedo granítico é o pavimento que lhe confere grandeza indiscutível, mas que lhe dá um gosto tiritante de frio na época hibernal.

Dois altares laterais, um devotado a Nossa Senhora de Fátima, outro a Santo António, de tabuões pintados com guarnições a dourado e alguns arrebiques na madeira, quebram um pouco aquela imensidão de sobriedade.

A fachada principal possui porta com torneado ligeiramente boleado e saliente. É seguida de uma edícula com a imagem da Sagrada Família. Sobre a edicula existe uma abertura de forma circular encimada por um pequeno dossel. Lateralmente e a invadir o espaço do corpo da Igreja, ergue-se torre sineira de pouca altura, quadrangular, embora com apenas três ventas, com acesso pelo interior, comum ao do coro. Remata em corucho piramidal encimado por catavento e cruz de ferro.

Do lado do Evangelho, adjacente ao corpo da Igreja, existe a capela de S. Miguel de Arcanjo, com quadros rectangulares, do séculos XVI, pintados a óleo, de S. Miguel e de S. Cristóvão. A capela tem inscrita uma data: 1602.
O altar de tabuões pintados de forma simples com guarnições douradas degradou-se muito por força das humidades e foi reconstruído com peças supervenientes à degradação e com peças do Altar do Coração de Jesus.

Esta imagem de Cristo hoje assenta em pedestal granítico dentro de oratório também emoldurado e forrado em granito e de maior antiguidade que a dos painéis, desfeitos pelo bichado, do altar a que se aludiu. Desse podem ver-se no altar de S. Miguel Arcanjo pequenas colunas, um pequeno dossel e um esplendor a encimar o painel superior.

A entrada é em arco estriado de grandes dimensões.

A inscrição que se vê no lado direito de quem entra na capela, alude à família que possui a capela dedicada ao Arcanjo e que mais tarde passou, por sucessão para a posse da família Cardoso de Lucena, até que a Lei proibiu que os particulares detivessem a propriedade de imóveis aderentes a templos abertos regularmente ao culto público.
Restam quadros da Assunção, a enquadrar o púlpito, com escadaria de granito, e do Pentecostes sobre a porta de comunicação da capela-mor com a sacristia, ambos da Renascença. Da variegada e apreciável estatuária, talvez se devam salientar a imagem maneirista da Virgem da Assunção que é a padroeira, sob a designação de Nossa Senhora do Amial.

 É assim denominada por, conforme reza a lenda, a Senhora se ter posto a caminho, surgindo do amieiral ou amial, a avisar o povo da Vila da Ponte da tempestade que se estava a armar, e desviando o rolheiro de centeio ou de trigo, que se interpusera nos arcos ou olhais da ponte e que, não deixando fluir naturalmente as águas, provocaria a submersão da povoação. E a imagem da Senhora do Pranto ou da Piedade (do século XVII provavelmente), em pedra de Ançã, colocada em edícola adequada, no muro sul da Igreja, confere ao vasto espaço a feição de uma rude dignidade religiosa.
Tal imagem estava na edícula da fachada principal e foi transferida para o interior por motivos que têm a ver com a cobiça de amigos do alheio, em tempo em que muitas imagens (algumas de indiscutível valor artístico e estimativo) foram surripiadas em circunstâncias nunca esclarecidas.

A Igreja foi sujeita a obras de profundo restauro no século XIX, em virtude de devastamento de que foi objecto pela acção das tropas francesas que por aqui passaram e onde estiveram acantonadas. Dela fizeram depósito de material de guerra. Todavia, parece que, por escrúpulo religioso e militar, nada quiseram danificar na capela de S. Miguel, o arcanjo da milícia celeste.

Nota-se que o muro sul do corpo da Igreja tem uma composição diferente quer ao nível da composição da parede, menos lisa e com lanchas de pedra muito pequenas, quer pelas alterações que o limite do templo com o adro sofreu.

Demais, pela Igreja passou uma volta de limpeza e restauro em 1984 – a obra que se afigurou necessária pela erosão do tempo e pelas condições de funcionamento decorrentes da reforma litúrgica.
À ilharga da Igreja está um cruzeiro de Templete (do século XVII), quadrangular, acompanhado de um pilar com um candeeiro, agora eléctrico. Guarda em cima de um alto pedestal o Cristo Crucificado e o tecto ostenta os instrumentos da Paixão. É a invocação de Nosso Senhor da Saúde.

                                                                           Texto: Da varanda do Távora
                                                                                   Página 179

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